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sábado, 3 de maio de 2008

CHÁ DE SUMIÇO

O sumiço tem explicação, e ela é simples: tava aproveitando minhas ultimas duas semanas de viagem.

Já cheguei no Rio, ainda tô no maior jetlag, e sem computador em casa, por isso os posts aqui vão rarear por um tempo. Mas o blog continua, porque tem muita coisa pra eu contar e mostrar.

Nesses dias que sumi daqui rolou de eu comer carne de um animal inventado, descobrir que um animal que eu jurava ser inventado existe de verdade, beijar um italiano no meio da rua, comemorar aniversário no ponto mais alto de Sydney, passear no meio de um monte de tubarões, chorar de saudade de um lugar muito especial da cidade, andar de roda gigante, correr da chuva nas escadarias do Opera House, confundir Sydney com Hong Kong, rir com as lembranças de amigos da época da escola, participar de um casamento que durou dois dias (e ser maquiada e penteada por um filipino que me deixou a cara da Ivana Trump), me emocionar com as demonstrações de carinho de amigos recentes, comprar comprar comprar bugigangas no mercadão dos turistas pra amigos antigos, passar a mão num coala, tomar chá num jardim chinês, decidir o que vou fazer da vida, realizar que viajar de avião só é bom se for de primeira classe, resolver que o importante é começar a poupar pra fazer outra viagem o mais rápido possível (nem que seja na econômica da Aerolineas, porque não existe nada melhor no mundo do que viajar pra longe).

Enfim, espero só terminar esse blog quando já estiver de passagem comprada pra outro canto do mundo – afinal, como boa meio-mineira que sou, nunca tinha comido melado, mas agora tô tipos super afim de me lambuzar!

Continuem aparecendo, porque tem muito mais no forninho!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

CHEGADA EM SYDNEY

A chegada a Sydney era meio que a parte que eu tava com mais medinho durante a viagem, porque teria que passar pela imigração, abrir bagagem, e tipos nem sabia em que hora ou onde exatamente pegaria minhas malas (rezando pra que elas estivessem lá - a gente ouve cada história, né), e todo mundo me disse que iam me fazer perguntas, que era pra eu ficar calma (e isso só me deixava era nervosa), e tals.

Mas o que aconteceu foi exatamente isso: na hora de sair do avião, as aeromoças, como sempre, seguraram o mobral lá atrás enquanto a classe A (eu! eu!) saía pela frente. A intenção era fazer a gente passar pela alfândega antes da boiada, só que dessa vez não deu certo, porque o lugar era i-men-so. Eu não tinha a menor idéia do que fazer, e fui seguindo um casal maluco que tinha viajado comigo (eles tavam sempre furando alguma fila ou passando à frente de alguém - da minha, inclusive...).

Só que o problema é que eles estavam correndo (provavelmente tentando passar na frente de alguém), e eu perdia os dois de vista toda hora. E a coisa é que ali era bem diferente da Nova Zelândia, porque a fila não se encaminhava para uma sala específica, muito pelo contrário. Era gente surgindo de todo lado, e eu tive que passar por vários corredores que davam deus sabe onde, e tinha tanto japonês pelo caminho, mas tanto, que por um momento eu achei que tinha tomado a direção errada em Auckland e aterrissado em Tóquio.

Quando dei por mim só tinha olho puxado a minha volta. Olhei pra cima e vi várias plaquinhas onde estava escrito customs e baggage, mas eu não sabia pra qual dos dois lugares me dirigir primeiro. Fui meio que seguindo o povo, reconheci outro casal que estava no vôo, e reparei que eu estava indo pro lugar errado (a fila para cidadãos australianos e neozelandeses). Voltei correndo e me juntei aos japinhas na fila para outras nacionalidades (tava mais pra "orientais e brasileira"). Acabou que era tudo um lugar só: a gente chega na imigração, passa por um portão, chega na área das esteiras, pega a bagagem e se dirige pra alfândega, logo em frente.

Mas então que ali na imigração era só pra apresentar o passaporte e a carteirinha internacional de vacina (a contra febre amarela é obrigatória, e eu dei a maior sorte de ter me vacinado duas semanas antes daquele boom que teve no Brasil, quando todo mundo ficou com medo de uma epidemia e ficou difícil encontrar a vacina nos postos. Aliás, vi uma reportagem alarmante há anos sobre o assunto, e talvez exista esse risco de verdade). O cara me fez duas únicas perguntas: de onde eu tinha vindo, e se eu tinha estado em alguma roça nos últimos dias. Re-lo-ou, ele lá ia saber onde é Itaipuaçu? Claro que menti na caraça. "Moro na cidade grande, meu". E foi ali que ouvi meu primeiro Welcome to Australia.

Passando pelo portão, zilhões de esteiras. Descobri qual era a minha no painel, peguei um carrinho, e fiquei lá esperando. A mala vermelha chegou rápido, toda suja, mas intacta. E quem disse que a outra aparecia? Logo ela, com a maioria dos meus sapatos, e meu jeans escuro, e meus cintos, e minhas bijous, e meu vestido de festa, e meu casaco prateado... Já estava ficando nervosa quando vi minha fofinha lá na putaquil, em cima de outra mala qualquer. Eu sou baixinha, nunca ia conseguir pegar sozinha, então só por causa disso pedi ajuda a um garoto gatérrimo que tava do meu lado, e quando ele colocou a mala no chão eu não sabia se chorava ou se chorava.

Gente. Minha malinha lindinha de xadrezinho verdinho e creminho. Toda. Destruída. Completamente manchada de sujeira e alguma substância amarela. O garoto olhou pra mim com simpatia, entendendo a minha perda. Porque é isso, ela está perdida. Pra todo o sempre. De agora em diante só compro mala descartável, de dez real. (Pior: depois descobri que, ao invés de quebrarem o cadeado, eles tinham estragado o zíper da pobrezinha... e remexido nas bijuterias que eu tinha empacotado com tanto cuidado em papel seda... Antipáticos insensíveis.)

E dali, o que eu devia fazer? Alfândega. Vi alguns guichês com filas gigantescas, e soube que não ia sair do aeroporto naquele dia. Parecia algo do tipo "Alto Verão No Piscinão De Ramos meets Ano Novo Chinês". Fui seguindo os 300 que formavam a fila mais próxima, e, quando estava quase chegando na ponta pra pegar meu lugar, um cara com uniforme do aeroporto me parou. "Fudeu, né". Ele me fez umas perguntas, pegou meu cartão de embarque, meu passaporte, perguntou detalhes sobre o que eu tinha dito que queria declarar (oi? chocolate?), e carimbou meu passaporte com um 51 verde, me mandando seguir pra última fila - ou pelo menos foi o que eu entendi. Cinqüenta e um realmente é uma boa idéia. Welcome to Autralia.

Fui lá pra tal última fila, a de oversize baggage. Ah, então é isso, eu tava na fila errada. Aí veio outro funcionário, olhou meu cartão, viu o código 51, e me mandou seguir em frente. Welcome to Australia. Tipo, entendi direito? Ele tava me mandando furar a fila? Cheguei no começo, passei por pessoas me olhando de lado, cheguei pra outro funcionário, mostrei o cartão, e ele me mandou passar pelo corredor. Welcome to Australia. Era só isso mesmo? Será que dava pra ter tido mais sorte?

Dica pra vida: não importa o que se vista durante o vôo (Bigode certamente não levou a sério minha calça de moletom molinho - confortável, sim, mas super coisa de pobre), é imprescindível que se troque de roupa antes de sair do avião. Tenho certeza de que não fui escolhida do nada: ajudaram a calça jeans de caimento perfeito, a camisete amarela com sobreposição da batinha preta, a antigone de correntes, a clutch amarela, o trench de tafetá, o óculos chanel, os 50 quilos de bagagem, a maquiagem e o novocorte de cabelo, cheio de atitude. Afinal, sede não é nada, imagem é tudo.

E ainda ganhei de presente pro ego uns molequinhos que tavam ali na frente e ficaram me olhando (tudo bem que eles tavam com cara de quem tinha bebido umas e outras, mas, ei, vamos deixar esse detalhe de lado. Foi o chanel). Pra quem tava se sentindo um patinho feio por causa de um comissário bigodudo, foi como calçar sapatilhas vermelhas e caminhar por um tapete de ouro. (Tá bom, vá lá, admito, Bigode não foi tão mau assim...)

E foi fácil assim que cheguei no saguão do aeroporto. Erick tava lá me esperando com um coalinha de pelúcia na mão, o Gizmo, e seguimos pra estação de trem, que é interligada ao aeroporto. A estação é chiquerésima, mas o trem decepcionou. O metrô do Rio é mais bonito. O trem que pegamos era bem velho, e todo pixado (mas depois descobri que existe outro, mais novo e confortável). O aeroporto fica em Mascot, um subúrbio distante pouco mais de dez estações de onde estou hospedada, e essa foi a primeira imagem que tive de Sydney:



(O vídeo não é de boa qualidade porque fiz na minha máquina fotográfica mesmo, e é curtinho porque esqueci de comprar o chip de memória...)

...

E aqui termina o registro da viagem até o outro lado do mundo. A partir de agora, deixo vocês só com notícias fresquinhas da vida na Oceania!

ps: não foi feito por mim, mas encontrei esses videozinho mostrando a chegada que eu gostaria de ter feito, aqui. Tirando os aplausos da classe trabalhadora, até que vale a pena pelo apresentador...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

RIDING THE HORSE - parte 3


(plaquinha do aeroporto, escondida pela neblina)

O aeroporto de Auckland foi o mais fofo dos 4 pelos quais passei. Fiquei enlouquecida com as lojinhas, o cheirinho, a limpeza, a educação e a simpatia das pessoas (especialmente a tripulação da Aerolineas. Parece que eles selecionaram os hermanos mais simpáticos pra essa parte da viagem).

Passei pela alfândega sem o menor problema (tive meses pra tirar todas as minhas dúvidas, e só tinha feito uma coisa errada: tinha que ter colocado TODA E QUALQUER maquiagem dentro do saquinho plástico que continha as embalagens de líquidos - mas fui corrigida na Argentina por uma funcionária sem muita paciência. Apesar de todas as informações trocadas que recebi, é muito simples: você pode levar na bagagem de mão artigos de toilette líquidos e em creme, mas cada uma das embalagens não deve ultrapassar 100ml, e devem estar acondicionadas em um saquinho plástico daquelas que fecham a vácuo, tipo zipblock). O kiwi moreno que me atendeu foi um doce (e era um gato), e foi a primeira parte da viagem em que eu tive que me virar sozinha pra descobrir o portão de embarque (no Brasil foi fácil, mas na Argentina eu só consegui encontrar porque esbarrei no caminho com dois brasileiros um pouco menos perdidos que eu).

Tinha 3 vôos saindo pra Sydney, um em cinco minutos, então fiquei um pouquinho nervosa até descobrir que não era o meu. Mas eu sabia que eles não decolariam sem me chamar pelo menos umas 5 vezes (o que me lembra uma cena engraçada: um funcionário do aeroporto chamou várias vezes por 3 homens que supus serem adolescentes argentinos - já que tinha vários grupos de estudantes no aeroporto. Na última vez, deu um esporrinho de leve que fez muita gente rir na sala de espera: "Attention Mister Hernandez, Mister Avila and Mister Garcia, may you please go immediately to the gate numbah fiiiive. Your flight is about to depart, and the othah passengers are just waiting for YOOOOU").

Apesar de ter tido o cuidado de ligar antes pra Embratel pra descobrir os números de ligação a cobrar para o Brasil em todos os países envolvidos, não consegui ligar pra casa, porque aparentemente o número que haviam me dado não existia. Tentei perguntar pra uma funcionária como fazer, eu com pouco inglês, ela com menos francês ainda, e acabei não conseguindo me fazer entender. Tive a idéia de ir na internet, mas não tinha moedas, então fica a dica: tenham sempre dinheiro trocadinho pra esse tipo de coisa.

Quando entrei no avião, dessa vez foi moleza. Um comissário com pinta de Don Juan me levou até meu lugar de novo, ofereceu chocolate com menta e água (logo agora que eu ia aceitar champagne!), sorriu, sorriu, sorriu. Na hora do lanche não me deu trabalho nenhum pra entender o que eu queria - o que me fez ter certeza de que o problema era o Bigode não se esforçar realmente, afinal, né, gente, ele sabia que não era pra eu estar ali, ele leu nos meus olhos. Don Juan não, esse me tratou feito a rainha que eu sou mesmo, mas acho que é porque eu estava me comportando como se aquele fosse o meu lugar.


(sandália antigone da Nativa - com correntes, chiquerésima - e meu trench coat de tafetá no colo, em cima da Vogue, digo, da Bíblia)

Só não consegui descobrir como funcionava a porcaria da televisão (cada cadeira tinha a sua), mas a luz veio um outro comissário ligar pra mim, sem eu nem pedir. Acho que é isso, néam, ali só tinha comissário, nenhuma aeromoça. E o Bigode, convenhamos, provavelmente não gostava de mulher.

Aí veio uma parte gostosa da viagem, o céu tava limpo, e consegui fazer algumas fotos:


(vista aérea de algum lugar depois de Auckland - essa eu tirei especialmente pro Wans!)


(o mar de algodão)


(a asa quebradinha pra cima que intrigou meu pai no saguão do Galeão, e uma das turbinas gigantescas do Airbus 340)


(nem preciso falar da minha boca aberta, né. Gente, camadas e camadas e camadas de nuvens de todas as cores e tipos. Uma das cenas mais lindas que já vi na vida)

Aí veio a única decepção da viagem inteira: uma vez eu li um livro de um australiano, e ele dizia que é maravilhoso ver a baía de Sydney quando o avião está pousando, e que o melhor lugar pra apreciar a vista é sentar em uma das janelas do lado esquerdo do avião. Assim que tive a confirmação do vôo, liguei pra companhia aérea pra reservar meu lugar, pra ter certeza de que veria Opera House lá do alto. Câmera na mão, qual não foi minha surpresa ao ver que essas nuvens lindas aí de cima estavam nublando completamente o litoral, e o que vi foram uns flashes de cidade - de subúrbio, pra ser mais exata. Mas que subúrbio lindo!

A chegada à Oz vem no post a seguir, o último relatando a viagem. Digo, relatando a chegada.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

RIDING THE HORSE - parte 2

Minha passagem foi um drama à parte. Estava com muito medo de não conseguir o visto pra viajar, porque não tenho absolutamente nada que comprove um vínculo com o Brasil, e não acreditava que o doutorado pudesse ser considerado pela embaixada australiana como comprovação de que eu não iria ficar ilegal no país pra ser, sei lá, prostituta e/ou escrava branca. Então fiquei esperando a resposta deles.

O problema é que eu tinha pouco tempo pra comprar a passagem com o super desconto de estudante, e, quando o visto finalmente chegou, um mês depois, já era, tive que me contentar com o valor total. E, como o visto tem um prazo de validade, e aparentemente todos os brasileiros resolveram viajar pra Austrália nesse período de fim de ano, o primeiro lugar disponível que apareceu foi pro final de janeiro, o que significava esperar quase 3 meses pra entrar no avião (já no limite de expirar meu visto).

Isso significou vir pela Aerolineas Argentinas, e eu queria vir pela Lan Chile (um monte de gente botou terror na empresa hermana). Mas tudo nessa viagem aconteceu pro melhor: não consegui viajar antes do fim do ano, o que significou chegar aqui numa temperatura mais amena (no auge do verão os dias batem 40 graus!), e ganhei de presente a segunda parte da viagem na classe executiva. Não sei exatamente o porque disso ter rolado comigo, já que eu nunca ganhei nem bala na feira, mas, como diria o Chicó, só sei que foi assim que aconteceu.

E, presente dos presentes, a Aerolineas não tem 3 classes, mas duas. Ou seja, viajei na executiva que equivalia à primeira classe. Nem gosto de ficar falando nisso mais, porque a cortesia não vai se estender pra volta - vou ter que retornar junto com a gentalha do mobral na classe econômica. Isso é de uma tremenda de uma sacanagem! É mais ou menos o que senti quando vi uma carteira rosa vintage da Chanel numa revista e me apaixonei, mesmo sabendo que jamais teria 5 mil dólares pra dar naquela bolsa. Ou em qualquer outra.

Mas enfim. O que segue agora é o relato dessa segunda parte da viagem, assim que peguei o segundo avião na Argentina, em direção a Auckland, na Nova Zelândia.

...

Pra começar, esqueçam essa história de que o importante é viajar. Quem diz isso nunca sentiu o gostinho dos mimos da primeira classe - a única classe, se vocês querem saber. Sim, ser pobre é uma merda. Eu sou metida, e nunca escondi isso, e só me arrependo de nunca ter viajado antes, porque ter know how teria feito muita diferença nessa hora.

Sim. Minha cara de perdida era óbvia, por mais que eu tentasse esconder que era peixe fora d'água - e me refiro não apenas ao fato de estar viajando pela primeira vez, mas de estar viajando de primeira classe. Escondi minha ignorância de todo jeito, mas se teve alguém que eu não consegui enganar, esse alguém foi o Bigode. Explico.

Primeiramente, na entrada do avião, assim que as aeromoças viram 7A escrito na passagem o sorriso delas mudou. O tratamento diferenciado já começava ali. Me levaram até meu lugar, e um comissário veio com uma bandeja: água, suco de laranja, champagne. Na econômica só tinha refrigerante pet - só pra vocês terem um elemento de comparação, ok. Esse mesmo comissário, um coroa de longos bigodes negros, tinha me visto entrar na parte nobre com minha malinha xadrez. Nossos olhares se cruzaram. E eu soube. Eu soube que ele soube.

Eu soube que ele soube que eu não pertencia àquele lugar, viu. Que eu era haoli. Que eu era ralé. Que eu era parte do mobral, e tinha era que estar lá no rabo do avião, não esparramada ali naquele assento gigantesco, sendo servida do bão e do miór. Ele sabia. Hermano feiticeiro do cacete.

Só que, mesmo sabendo, ele tinha que fazer o trabalho dele, néam. E veio pra perto de mim com uma bandejinha cheia de canapés de queijo gruyère e tomate seco. Fiquei com medo de tomar champanhe e pagar mico, muita gente disse pra eu tomar cuidado com álcool, então fiquei só na água mesmo. E dali foi só esperar todo mundo se acomodar pra chegar na minha parte preferida da viagem: a decolagem. Sorri só de pensar que ainda teria outra parada, logo outra oportunidade de sentir o avião pegando velocidade e subindo. Claro que, dessa vez, o avião era bem maior, e a impressão que eu tive foi que ele não ia subir não. Mas subiu, é claro, afinal o que é que eu sei?

Eu só sei é de uma coisa: I was born to first class. Vou até fazer uma camiseta. Ou uma tatoo.

...

Naquela parte da viagem, tiva a companhia de um ser humano que deveria descrever como uma mistura de Paul Hogan, Kelly Slater e David Beckham. Mas meninas, não se assanhem ainda; em relação ao visual, ele tinha jeitão de surfista metrossexual, mas a cara tava mais pra Paul Hogan mesmo.



O fato é que o homem chegou, deu aquele sorrisinho, arrumou as coisas, bebeu champagne, e começou a ler um livro. Pouco depois, percebi que ele tava de olho no meu caderninho de anotações, onde estava tomando notas pro blog. Ele olhou pro caderno rosa, pra caneta rosa, pra valise rosa, e não conseguiu segurar o riso quando viu minhas meias cor-de-rosa com desenho de joaninha. Bom, ok, talvez eu tenha mesmo exagerado. Ainda bem que não dava pra ele ver minha luva de lã rosa. Com pompons. A questão é que eu já tinha perdido a credibilidade mesmo, néam, então pra que me preocupar.

...

Sabem de uma coisa horrível? Eu sempre falava em português com as pessoas. Olhando pra trás, acho que era por isso que eles não entendiam nada do que eu estava falando. O Paul Hogan tentou puxar papo comigo, mas acho que ele logo percebeu que ia dar muito trabalho e desistiu. Ou isso, ou foi quando eu disse que era professora depois dele ter dito que tinha feito especialização em Business pela UCLA. Tipos, eu sequer valia a pena. Mas ele bem foi bonzinho, e nem riu quando eu pedi pra ele chamar o fly attendant.

A viagem de 14 horas até Auckland foi tranqüila, apesar de entediante. Uma escuridão danada do lado de fora, e horas e mais horas atravessando o Pacífico sem nada pra fazer... O jantar foi chato, porque Bigode nunca entendia o que eu tava falando (português versus espanhol + minha voz naturalmente muito baixa + barulho do avião + o fato dele ser um besta). Eu quis o macarrão e ele me deu a carne, pedi vinho branco e ele queria me servir tinto, desisti de tentar pedir a sobremesa, já que ele não ia me dar o que eu queria mesmo, fiz que não com a cabeça quando ele apareceu com o carrinho, e quase morri quando descobri que era sorvete.

Paguei mico quando fui ao banheiro pela primeira vez. Tipo, eu lá sabia como era banheiro de avião? E cadê que eu encontrava a porta? Fiquei rondando por ali, fingindo que tava esticando as pernas com exercícios de alongamento, até que resolvi voltar pra cadeira. Aí vi uma porta onde tava escrito toilet, bem apagado. Ela abria esquisito, mas consegui entrar e fazer meu xixi, que tava quase saindo pelo meu nariz.

Cochilei um pouco. Acordei. Não sabia acender a luz, nem ligar a televisão, e pra falar a verdade não queria dar a Bigode o prazer de ter certeza de que eu não sabia mexer em nada daquilo. Coloquei minha máscara de panda da Denize, e esperei o tempo passar. E quanto tempo. Gente. Quanto. Tempo. Tanto tempo que cada turbulência era um deleite.

Aí, depois que serviram o café (com um espeto de carne e cebola, e um quadrado verde molhado que parecia pão mofado e que permaneceu, obviamente, intocado na bandeja), eu sabia que faltava pouco pra aterrissar. Saí do avião com medinho de passar pela alfândega (o Erick cansou de ver gente levando esporro ali), e segui pra terceira parte da viagem. Já conto.

RIDING THE HORSE - parte 1

Bom, gentem, finalmente estou com meu tecladinho brasileiro instalado, o que significa ter de volta uma ferramenta básica: acentos. Coisa mais angustiante, escrever sem agudos, circunflexos, cedilhas e afins.

E isso significa também que posso contar pra vocês como foi a viagem até o país de Oz (pra quem não sabe, os australianos têm um apelido carinhoso pra eles mesmos: aussies. E a pronúncia é igual ao nome daquele cantor bizarro, o Ozzie Osbourne). Let’s go.

...

Bom, tenho um amigo dos tempos de escola que mora na Austrália há uns 20 anos, e ele me convidou pra passar 3 meses na casa dele (coitado. Definitivamente, esse convite vai se transformar numa coisa semestral). No começo eu só pensava no medo, né: ficar sem trabalhar durante meses, com pouco dinheiro entrando (tenho a bolsa de doutorado, que aqui não é nada, mas que de qualquer forma já estaria mesmo em parte comprometida com minhas contas no Brasil), depender completamente de outro ser humano pra dormir numa cama e comer, fazer minha primeira viagem internacional, enfrentar meu medo de avião... enfim, muito motivo pra me apavorar. Mas me endividei pro resto do ano, consegui juntar uns poucos dólares, e a viagem foi marcada pra 30 de janeiro de 2008.

Foram meses esperando esse dia chegar, num misto de ansiedade, excitação, angústia, saudade antecipada e Cris marcando e desmarcando meu bolo de nutella de despedida. E aí chegou terça 29, véspera da viagem. E ainda nada de bolo de Nutella.

No dia da viagem eu tava tão excitada que nem comi nada. Meus pais, uma tia e uma amiga-irmã foram ao aeroporto comigo e 50 quilos de bagagem. Tava tranqüila com a viagem, mas chorei muito na hora de me despedir do meu cachorro. É engraçado que ele foi o único que me derrubou, mas é que eu sabia que ia poder ligar todo dia pros meus pais, e falar com os amigos por email; com Tum-Tum, silêncio por 3 meses. Cruel.

Já no aeroporto, comecei a me sentir mal, ansiedade e estômago vazio, e a hora de entrar no avião e sair do chão... Gente, isso não é um meio de transporte normal, certo? Se a natureza quisesse que a gente voasse, teria nos feito todos com asas. E bebi café, e comi chocolate, o que piorou um bocado a sensação no meu estômago.

Na hora de me despedir, um abraço apertado na minha comitiva e o choro rolou solto. Estranho ficar tanto tempo sem as pessoas que mais amo nesse mundo – eu SEI que 3 meses passam voando, mas é minha primeira vez, e eu nunca estive totalmente sozinha na minha vida. A partir de momento que eu passasse pelo portão de embarque, seria tudo novidade, e isso era um pouquinho assustador.

Acabou que fiz tudo direitinho, e até entrar no avião parecia que eu tinha feito isso minha vida inteira. Mas foi só até o avião ligar as turbinas. Vocês acham que entrei em pânico? Nem um pouco. Tava tão calma que me espantei. E quando o avião começou a subir... Eu não sei nem como começar a descrever o que senti. O dia estava lindo: o céu mais azul que vocês possam imaginar, com nuvens branquinhas, parecendo algodão-doce, cobrindo a paisagem, o sol se pondo num dourado inacreditável, e sei que tudo isso é clichê, e talvez muito batido pra quem de vocês tenha o hábito de voar, mas a questão é que quando dei por mim as lágrimas estavam rolando. Eu só conseguia pensar que meus pais tinham que estar ali pra ver aquilo também.

Fui num avião pequenino, eu que odeio andar de van porque sinto claustrofobia, mas que me importava se não tinha espaço pra esticar as pernas? A única coisa que me deixava doente naquela hora era ter esquecido a máquina dentro da bolsa de mão e não ter como tirar fotos daquela vista maravilhosa. Uma pena. Um céu perfeito.

Por sorte o lugar ao meu lado estava vago, e não tinha ninguém me incomodando. Fiquei acompanhando o céu durante muito tempo (não sei se vocês sabem, mas sou uma nuvem person), só parei pra prestar atenção na demonstração de segurança que as aeromoças estavam fazendo. Não prestei muita atenção na explicação em si porque, vamos combinar, de que adianta saber colocar um colete num avião em vias de se espatifar no chão? , mas foquei na cara de tédio das aeromoças, impagável.

Logo chegou a comida (achei que não estava com fome, mas acabei comendo o macarrão e o folheado doce, mas só bebi água). Não conseguia entender absolutamente nada do que as aeromoças argentinas falavam em espanhol, e fiquei esperando que repetissem em inglês, mas elas não fizeram isso. Bom, pelo menos me pareceu que não, a língua que elas usaram mais soava como russo, ou norueguês, de repente. Sei lá.

Mas aí escureceu completamente, e eu logo logo estava entendiada. Ninguém pra conversar, minha Vogue de janeiro lida de trás pra frente, e o barulho dos adolescentes nos bancos da frente começando a me incomodar. Foi quando a aeromoça anunciou que estaríamos entrando numa zona de turbulência, um de meus piores pesadelos ever. E vocês acham que senti medo? Naquela hora eu tava era louca pra ver como era. E, dali em diante, toda hora que me sentia entendiada ficava torcendo pra ter uma turbulência, pra rolar alguma emoção.

Aí chegou a hora de pousar. Me apaixonei por Buenos Aires vista do alto, de noite. Lindo. Chocante de lindo. Estava louca pra ver como o avião pousava, e foi muito legal (tenham paciência com essa marinheira de primeira viagem, please). Sem saber o que fazer, pra onde ir, fui seguindo a boiada.

O aeroporto era estranho, filas imensas esperando pros empregados revirarem as bagagens de mão, tudo muito desorganizado. Mas logo chegou a hora da segunda parte da viagem. E isso eu conto pra vocês a seguir...